Há uns dias atrás, numa conversa mais acesa, o meu pai disse-me:
- Já há muito tempo que eu reparo que não vês maldade em ninguém!
A conversa continuou acesa e isto não me saiu da cabeça, fazendo-me lembrar que
a minha avó paterna, há muitos anos atrás, também me dizia que para mim ninguém
era mau.
E eu sinto-me lisonjeada por duas pessoas tão importantes e próximas de mim
terem essa opinião. E ainda que ambas o tenham dito em jeito de crítica eu
considero isto um elogio.
Eu não sou assim tão ingênua, parva ou estúpida. Obviamente que tenho uma
opinião ou, às vezes, até faça avaliações aos comportamentos dos outros para
comigo. Contudo as opiniões ou atitudes de grande parte das pessoas que me
rodeiam (vizinhos, colegas de trabalho, conhecidos, contactos...etc.) não me atormentam.
Não me fazem perder o sono, não me fazem andar zangada com o mundo, não me
impedem de ser quem sou ou de fazer aquilo que quero. Em bom português,
basicamente, não me interessam (interessam-me sim as opiniões de alguns
familiares, dos amigos próximos e de alguns chefes de trabalho).
Talvez seja por isso que dificilmente alguém me ouve criticar alguém ou a
lamentar que alguém diz que disse de mim. Não me interessa. Isto foi talvez um
mecanismo de defesa que adquiri na infância (uma vez que fui dentuça até aos 25 anos
e caixinha de óculos até aos 18) e fui aperfeiçoando com os anos.
Uma das minhas melhores amigas, que veio dos tempos de escola. Antes de
gostar de mim disse-me na cara que me detestava. Andávamos, talvez no oitavo
ano e teríamos uns 14 anos. Quando lhe perguntei a razão disse-me que era a
minha atitude extrovertida que a irritava. Ela era das que tinha medo da
própria sombra. Respondi-lhe que um dia seriamos melhores amigas. Riu-se de mim.
Lá para o décimo ano conquistei-lhe o coração e é uma amizade que dura até hoje
e tem resistido à distância. Quando me casei foi ela que desenhou e fez os
noivinhos para o bolo de casamento, que é uma réplica nossa. Quando vou a
Portugal é uma visita obrigatória.
Na Universidade voltei a ter uma história parecida, alias várias histórias.
Não posso dizer que dessas histórias se geraram grandes amizades mas sei que
com o tempo essas pessoas foram percebendo realmente a minha essência e hoje me
respeitam pelo que sou.
Sou extrovertida, faladora, entusiasta, energética, não vivo na sombra e não
tenho grandes problemas de auto-estima (na maioria das vezes) e isso por vezes
é mal-interpretado é confundido com arrogância ou até falta de humildade.
Contudo, nada que o tempo não ajude a resolver a quem realmente quer perceber.
Muitas vezes confrontei pessoas com o que diz que disse (em meu nome) e
muitas foram as vezes que não havia fundamento.
No trabalho, nunca me juntei às conversas dos fumadores e bebedores de café,
até porque não fumo e só bebo café ao pequeno-almoço.
Se vejo maldade nos outros? Não, no fundo não vejo. Vejo é comportamentos ou
ouço opiniões fruto de juízos de valor à minha pessoa.
Se isso me perturba? Não, não me perturba porque na maioria das vezes estou tranqüila
com a minha consciência, com os meus valores e com as minhas atitudes.
E quando me perturba é tempo de perceber que errei, de voltar atrás e pedir
desculpa.